sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cabelos: o tabu da quimioterapia

Decidi começar por esse assunto que, como muitos vão concordar, é o grande "vilão" da quimioterapia, para aqueles que NÃO a fazem. Digo isso porque é só mesmo quem faz pra entender o quão pequena se torna a importância de ter ou não cabelos quando você sente o que se sente fazendo esse tipo de tratamento, tão invasivo.

Pra ser bem sincera, eu não consigo descrever as sensações. Na verdade, em cada período, em cada sessão, são efeitos colaterais novos e diferentes. Depende muito também do seu estado emocional, pelo que percebo. Mas só pra tentar traduzir isso, tem horas que realmente você prefere morrer do que ficar sentindo aquelas coisas. Sem exagero, sem sensacionalismo! A única vontade que se tem é que os segundos, os minutos, as horas, os dias passem o mais rápido possível, até que os efeitos diminuam. E aí vai dando aquele alívio, aquela vontade de comer, sentir o gosto da comida, sem ter ânsia, sem ter que vê-la saindo de volta vaso sanitário abaixo. É triste, mas é real.

Infelizmente esse ainda é um dos mais eficientes métodos de cura ou de controle da doença, então o que nos resta é aceitá-lo. Mas acho que se um dia ele fosse definitivamente substiuído ou se, pelo menos, não causasse tanto pavor, a torcida dos pacientes com câncer agradeceria, e muito. Tenho absoluta certeza disso!

O lado bom é que tudo acaba e, na grande maioria das vezes, vale a pena ter passado por tudo aquilo, já que se você não arrancar essas forças de algum lugar, aí sim é que a coisa complica. E esse "lugar" para arrancar tanta paciência e força é exatamente os amigos, a família... (lembrando que os que fazem jus a essas classificações 'amigo', 'família' são poucos). Mesmo que a família seja enorme, FAMÍLIA de verdade você percebe quem são nesse momento; mesmo que os amigos do facebook sejam mais de 1000, os que te consolam e te impulsionam para o próximo dia de quimioterapia não passam de 10, com muita sorte.

Eu não posso reclamar de apoio, afinal o próprio blog demonstra que por falta de encorajamento é que eu não vou desistir. Onde quero chegar é que, por razões compreensíveis, as pessoas naturalmente se isolam quando estão em tratamento ou quando descobrem o câncer. O meu conselho é que, pelo contrário, elas busquem as outras pessoas. Claro, você sempre vai encontrar resistências, mas vai conhecer o lado mais magnífico do ser humano, o lado da humanidade, da solidariedade e da sinceridade... com certeza vai ver nas palavras e nos sorrisos de admiração das pessoas um dos mais belos prazeres da vida. E o que é viver senão isso?

Bem, mas o assunto aqui era cabelos, né? Justo! Me perguntam: - Você sente falta dos cabelos? - É CLARO que sim. Mas ainda que, às vezes, façam falta pra mim, sei que se um dia fizerem falta pra alguém à minha volta é porque esse alguém não tem o mínimo de sensibilidade e não merece a minha amizade ou seja lá o que for. Cabelos não mudam o que você é. E, tem mais, eles crescem. Sempre dá pra ficar com um visual diferente e fazer piada com isso (mesmo quando os amigos te chamam de Joãozinha hehe). Mas a certeza é que cabelo não demonstra vaidade ou feminilidade. O que importa é, sim, a saúde e o prazer de viver bons momentos, seja de lenço, peruca, cabelo curto, comprido ou careca.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Documentário "Caranguejo"


Fiquei devendo o documentário, o qual ajudou a dar origem ao nome do blog!
Uma produção de Adolfo Vaz, Gabriela Jacuboski, Renata Caleffi e Suellen Vieira.
Prêmio Expocom Sul de Comunicação (2010) - melhor vídeo da região sul na modalidade.

A história em números

Nesses 10 anos, foram 10 intervenções cirúrgicas, das quais 3 biópsias e outras 7 grandes operações, em que foram retirados 8 tumores. Além disso, as intermináveis sessões de quimioterapia; 16 nas minhas contas. Os números impressionam, digo até que chocam. Mas, por trás deles, há muito a ser lembrado e a ser contado. Os números eu deixo pra esse início... No mais, a ideia é compartilhar sentimentos, angústias, raiva, sorrisos, agruras, desespero, alegrias. É isso que me proponho a fazer aqui neste blog. A razão? Não sei, apenas senti essa vontade, essa necessidade. Mesmo que passe despercebido para a maioria, sei que alguns vão ler e se identificar, outros se emocionar, outros relembrar junto comigo as dificuldades vencidas. Hoje estive no Hospital do Câncer, em Londrina, local onde tenho passado boa parte do meu tempo nos últimos anos. Aliás, muito mais tempo do que eu queria. Na consulta, o médico viu alguns exames e confirmou mais 2 suspeitas que eu já tinha. Ou seja, a saga continue em breve. E eu já estou pronta pra vencer, de novo!

Saindo da toca...

Há tempos pensava em criar um blog. Mesmo depois de me formar em jornalismo e acreditar no poder dessa mídia, não o fiz. Mas cá estou eu, porque nunca é tarde. Como primeira postagem, gostaria de explicar o nome que eu dei ao blog; há, pelo menos, dois motivos. O primeiro é porque queria algo relacionado a 'Caranguejo', já que, ainda na época da graduação, produzi juntamente com 3 colegas um documentário sobre câncer, que levava esse nome. Explico: originária do latim, a palavra câncer significa caranguejo, pois as células doentes atacam e se infiltram nas células sadias como se fossem os tentáculos de um caranguejo. O segundo motivo veio após eu ler um texto de autoria de Roland Körber em parceria com Miguel Herrera, o qual conta, em metáfora, como o ser humano hesita, fica parado enquanto a vida passa, enfim, "carangueja". Eu, me sentindo um caranguejo, decidi agir, fazer a minha parte, mostrar um pouco de quem eu sou, e contar um pouco da minha história. Lutando contra o câncer desde os 12 anos, ou seja, há exatos 10 anos, achei que este blog pode ser uma forma de "celebrar" o aniversário da década que se passou. Abaixo, o texto citado; vale a pena ler!


Alguma vez você já parou para observar os caranguejos na praia? À primeira vista não é muito fácil, porque sua cor é quase igual à da areia, e assim é difícil enxergá-los – assim como você e eu no meio da multidão: pouca gente presta atenção em nós.
Para os caranguejos, isto é certamente uma proteção – quem não é visto não é atacado. Quando, porém, damos um passo em sua direção, eles começam a correr daquele jeito estranho, meio de lado, sem direção definida, mas em grande velocidade.
Assim como alguém disse certa vez: não sei para onde vou, mas faço isso à toda.
Eles só tomam iniciativa dentro da água e lá, mais protegidos, reagem quando encostamos neles. Aí, cuidado: mordem!
Dentro do ambiente próprio, cuidado conos... com eles – pois é, não são só os caranguejos.
Na praia, cavam suas tocas na areia e, quando conseguem alcançá-las, desaparecem rapidamente dentro delas diante daquela enorme ameaça que vem andando em sua direção. Às vezes apontam a cabeça para fora e então podemos observar ao longe dois olhinhos vigilantes, como um periscópio de submarino, para sumir rapidamente quando alguém se aproxima.
O mundo é assustador, e enquanto podemos observá-lo de longe, tudo bem, mas é bom não se expor em demasia.
O que o caranguejo faz dentro da sua toca? Nada, pelo jeito – trata de sobreviver, apenas. Coitado dele, não tem outra opção.
Diante de tudo que nos assusta na vida, podemos caranguejar, mordendo onde estamos em vantagem, fugindo do que nos assusta, observando o mundo sem nos envolver ou nos recolher à nossa toca – “não vejo, não ouço, não falo: deixem-me em paz”.
Que tal a vida de caranguejo? Sem graça, não?
Mas quem disse que nós vivemos assim? Afinal, temos os nossos objetivos na vida, sejam quais forem – trabalhamos e nos esforçamos para nos realizar.
No entanto, tenho a impressão de que esses nossos esforços não diferem muito de tocas de caranguejo – quando a maré sobe e revolve a areia, era uma vez uma toca. Daí o grito apavorado de quem não era caranguejo e sentiu isso:

“Todas as tuas ondas e vagalhões se abateram sobre mim.” ¹

A diferença é que para o caranguejo isto faz parte normal da vida, dia após dia, mas nós temos anseio por algo mais permanente. Ao mesmo tempo continuamos a buscar refúgio na nossa toca de areia e experimentamos que

“a mentalidade da carne é morte...” ²

E assim será, se pararmos por aqui. Mas este último texto continua, assim:

“...mas a mentalidade do Espírito é vida e paz. ... Vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. ... Se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça.” ³

Saia da sua toca de caranguejo e não fuja só porque alguém se aproxima. Observe bem: pode ser Jesus, que vem para lhe dar uma vida com que caranguejo nenhum sonha e que muita gente também deixa escapar. Por que você seria um deles?

Referências da Bíblia: ¹ Salmo 42.7b; ² Romanos 8.6a; ³ Romanos 8.6b,9a,10