quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lula e SUS: mais uma a opinar

Desde o último sábado (29 de outubro), dia em que foi diagnosticado e divulgado o câncer do ex-presidente Lula, não param de pulular opiniões e mais opiniões na internet a respeito de tratamento público e privado. Claro que não vou deixar a minha passar em branco. Mas, de imediato, quero deixar claro que são apenas as minhas meras impressões.

Em primeiro lugar, muitas das pessoas que estão criticando, seja o Lula, seja o SUS, nunca tiveram que "enfrentar" um tratamento no sistema público, muito menos um câncer. Bem, eu, como paciente oncológica há 10 anos, sempre tratada através do SUS, tenho pelo menos uma "versão" real a dar.

Em segundo lugar, acho imprópria essa campanha que criaram, e foram reproduzindo indiscrimidamente. Nunca fui a favor de correntes sem fundamento, esta não ia ser a primeira vez. Embora compreenda o sentido de protesto que está por trás do ato, acho que grande parte dessas pessoas não faz nada pra ajudar quem está ao lado, então pra quê fingir preocupação em rede?

Em terceiro lugar, por que não fizeram nada parecido quando aconteceu com a Dilma ou com o José de Alencar, ou mesmo com outras personalidades famosas? Só o Lula tem defeitos o bastante para "merecer" o SUS? Nesse sentido, concordo com o Dimenstein, quando ele diz que "a interatividade democrática da internet é, de um lado, um avanço do jornalismo, e, de outro, uma porta direta para o esgoto do ressentimento e da ignorância", em "O câncer de Lula me envergonhou".

A propósito - e meu intuito não é, de forma alguma, defender o SUS - nunca fiquei na mão nesses 10 anos. Acredito sim que é um sistema com muitas falhas e, principalmente, muita demora. Se formos pensar em uma doença como o câncer, em que dias ou poucas semanas fazem toda diferença, não deveria mesmo haver demora, o processo tinha que ser mais ágil. De qualquer forma, no meu caso - e estou aqui falando apenas do meu caso - essa lentidão não causou maiores prejuízos. Percebo, em contrapartida, que apesar de um sistema falho e burocrático, as pessoas, as peças que compõem esse sistema, agem da melhor forma para que tudo se encaminhe com mais rapidez (salvo algumas pífias exceções).

A fim de não "cuspir no prato em que comi", quero aqui registrar que o SUS - pelo menos em termos de tratamento oncológico e restringindo também à região do Paraná (que é onde me trato) - funciona sim, e funciona bem. Eu nunca poderia dizer que é "a maior e a pior desgraça para qualquer ser humano" ou "uma porcaria federal", como fez Helder Caldeira no texto "Não desejamos SUS a quase ninguém". Mas também não sou hipócrita em dizer que se fosse o Lula ou tão rica quanto ele não me trataria num hospital de ponta.

Vale a pena resgatar um texto escrito por Cristiane Segatto em junho de 2010, que pergunta "O SUS deve dar tudo a todos?". Concordo quando ela diz que "falta dinheiro para cuidar da saúde dos brasileiros. [...] Devemos combater a corrupção sempre, em todas as áreas. Mas só isso não basta. Mesmo que não houvesse um único corrupto no Brasil, ainda assim o dinheiro da saúde não seria suficiente para atender a todos os nossos anseios por novas drogas e tecnologias".

Talvez isso vá contra mim mesma, já que os gastos que o governo já teve comigo foram muito maiores do que os que teve com a maioria de vocês que estão lendo. Porque tratar o câncer custa caro, muito caro. Eu tenho esse direito, mas não sei também até que ponto o dinheiro gasto comigo não está faltando para o atendimento básico em outros pontos do país. Por isso não vale a pena reclamar, e sim tentar entender onde está a fonte dos problemas. O mais correto seria que a maioria tivesse condições de pagar pelo tratamento, e não de depender do Estado. 

Até porque - palavras também de Cristiane Segatto - "Como se vê, todos estamos sujeitos ao câncer. Acontece com os velhos, com os moços, com os bebês. Com os ricos e com os pobres. Com os altos e magros e com os baixinhos e gordinhos. Com os sedentários e também com os atletas (ainda que em menor proporção). Com os feios e com os bonitos" *.

20 comentários:

  1. A cada post admiro mais a sua história e seu talento como jornalista. Só lamento não ter te conhecido melhor nos tempos da faculdade rs. Parabéns pelo blog, muito sucesso!

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  2. Adorei essa abordagem. Não tinha analisado a questão por esse ângulo.
    Nada melhor do que nós, que conhecemos o problema, para nos posicionarmos de uma forma mais realista.
    Meu tratamento é por convênio e só porque sou funcionária pública. Do contrário não teria como pagar e enfrentaria o tratamento pelo SUS. Aqui no RS o atendimento pelo SUS não é dos piores, se compararmos com outras regiôes do país.
    Meu marido, há um tempo atrás sofreu um acidente e teve o tornozelo separado. Fez todo o tratamento pelo SUS e tev um ótimo atendimento. Minha duas irmãs tiveram gravidez de alto risco, também foram muito bem atendidas no SUS. Acho que muito se deve a uma questão de tratar funcionários com educação.
    Quanto a sensação de paernalismo que temos no Brasil, é algo que ainda não tinha pensado.
    Mais um texto seu que adorei.

    Suellen, seus textos, além de perfeitamente escritos, Têm uma cadência e uma suavidade capaz de tratar de temas polêmicos de uma forma que não fere e nos faz pensar.

    Beijos!

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  3. Oi, Suellen!
    Concordo plenamente com vc, qdo vi todos os posts de crítica no facebook, fiquei mto triste, pois as pessoas não sabem o quão desesperadora é essa doença. Qdo se está de fora é mto fácil brincar ou criticar...
    Eu também fiz meu tratamento oncológico pelo SUS e não tenho do que reclamar, fico pensando se não houvesse o SUS o que eu faria???

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  4. Parabéns pelo texto, Suelen. Fiquei espantada com a quantidade de artigos que li, de autores com câncer, que afirmam serem bem tratados (ou pelo menos de forma razoável) pelo SUS. Acho que os textos, como o seu, são importantes para que, como você mesma diz, "correntes sem fundamento..." continuem circulando pela rede e pela sociedade. Mas, temos que admitir que a corrente sem fundamento, incitada raivosamente pela juventude tucana (segundo os blogs do nassif, conversaafiada e viomundo), serviu para mostrar que há formas mais dignas de discussão sobre a saúde no Brasil.

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  5. Erica Juliana Breda2 de novembro de 2011 14:27

    Me incomodei com a campanha... "Lula, por que vc não trata seu câncer no SUS"... independentemente do lugar, estamos falando de câncer. E quem é diagnosticado com ele precisa ser encorajado para tratar da doença e não ser criticado porque vai tratá-la aqui ou acolá.
    P.S. Você escreve muito bem! Fala das coisas com fundamento e com a alma!

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  6. Eu estava esperando por esse texto! Eu ia até reclamar. Obrigada Su.

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  7. matoapau! só me da orgulho essa menina!!

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  8. Como paciente oncológica (por mais que seja extirpado, uma vez paciente oncológica, sempre paciente oncológica) tentei ver por outro ângulo a campanha para o Lula fazer seu tratamento pelo SUS. Acho que a abordagem poderia ser: como seria se o diagnóstico do Lula dependesse do SUS? Qual "mortal", que não se encontre internado em um hospital (mesmo assim não sei se é possível), fez uma biópsia em um dia (sábado ainda por cima), recebeu o diagnóstico no mesmo dia e dois dias depois iniciou o tratamento? Fiz meu tratamento por convênio, e ainda assim, entre suspeita, diagnóstico e tratamento foi um bom tempo. Penso naqueles que, em suas cidades não possuem nem acesso à saúde básica, quem dirá a tratamentos de ponta, oferecidos pelo SUS mesmo. É essa dificuldade que os governantes poderiam abreviar para a população tão sofrida. Ninguém merece certos atendimentos, nem mesmo o Lula.

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  9. Por que o Lula e não os demais? Porque ele disse que queria ser tratado em um hospital público, porque quando o FHC era presidente ele o criticou dizendo que os tucanos não se tratariam num hospital público, por questões de convicções e não discurso da boca pra fora. Mas princípios e convicções são raros.
    Não desejo o mal a ninguém, mas algo mais justo, porque ele pode ter o luxo de toda hotelaria nos privados e você não nos públicos? Deveria ser a mesma coisa.

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  10. Como assim o mais correto seria que a maioria tivesse condições de pagar pelo tratamento, e não de depender do Estado? Claro que não! Ninguém está dependendo do Estado, está tendo apenas uma contraprestação por aquilo que paga através dos tributos. E é dever do Estado proporcionar isto a todos independente de condição financeira. Pensar assim é eximir o Estado de um dever que é dele e não de orgãos privados.

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  11. Acredito que as pessoas devam se identificar, para continuarmos o "debate". Talvez o "anônimo" último não tenha entendido o que eu quis dizer...

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  12. Ótimo texto, Suellen!!
    Fazia um tempinho que não passava por aqui, mas já li todos os posts que não tinha visto e aproveito para deixar meu recadinho de incentivo (continue escrevendo!) e parabenizar novamente pelo Blog. Está fazendo um sucesso mesmo! ;)

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  13. Concordo com você, Su, e adorei sua abordagem. Mas eu também acho que não devemos lamentar que nem todas as pessoas não tenham dinheiro para se tratar no sistema privado. O Sistema de Saúde Pública no Brasil, da forma como foi concebido, prevê que a saúde é um dever do Estado e um direito de todos. Não é só para os mais pobres. Então, deveríamos lutar para que todos pudessem usufruir desse direito e que ele fosse sempre ágil, com todos sem distinção. O SUS é falho sim, mas serve de exemplo para muitos países como sistema público de saúde. Também já dependi do SUS, inclusive em cirurgias, internações, transfusões de sangue. Comigo também funcionou. Confesso que não posso generalizar, porque, como disse você, existem grandes centros com grandes problemas de saúde. Mas ele é um sistema que foi bem planejado e que deveria funcionar para todos. Sem exceção. Quanto à campanha sobre o Lula, lamentável. Devo dizer que seu texto foi, junto com o do dimenstein e de outra menina com câncer que li, os três melhores sobre o assunto. Vou tentar achar o link do texto dessa menina. Beijo

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  14. Tá aqui ó: http://purplesofa.wordpress.com/2011/11/01/eu_o_sus_e_tals/

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  15. eu não esperaria outras palavras suas. Lindo e foi como eu pensei que seria sua opinião. Para quem fez a manifestação nas redes, lamento, e só. Seria dever do estado oferecer tantas outras coisas para nós, é constitucional, só que nem todas as garantias são garantias de que todos usufruirão do sistema público. Há preconceito até nisso. e isso renderia uma discussão ainda maior!
    parabéns gata!

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  16. agradeço a todos os comentários! e, Tati, eu já tinha lido esse texto. muito, muito bom mesmo! concordo com muito do que ela disse...mas acho que o dela não é câncer. beijo!

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  17. Ah é, é esclerose múltipla. Uma doença grave, também. Foi mal.

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  18. muito bom fia, mais uma vez uma postagem relevante, fazendo com que possamos refletir um pouco mais.
    parabens!

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  19. Suellen, adorei seus textos :) Assim como você também encontrei nas palavras uma forma de poder repassar para o mundo um pouco dessa experiência única e misteriosa que é o câncer e fico tão feliz em ver aqui o resultado bom que temos conseguido.

    Espero que continue semeando esperança assim como eu tenho feito também, para que possamos evoluir juntos e tornar esse mundo um lugar um pouquinho melhor.
    Um grande beijo.

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